(texto escrito em Lisboa, durante uma viajem de comboio...com tempo para escrever e refletir, depois de ler folhetos informativos sobre a doença de alzeihmer)
Tenho a boca amarga de nao poder, ou nao conseguir dizer "amo-te", tenho os olhos que ardem porque contenho as lagrimas de impotencia.
Cuidaste de mim, deste a luz a minha mae e eu nao consigo retribuir o gesto, a funcao.
Porque é que a vida é assim -- cala o grito na garganta e correm as lagrimas no meu rosto. Porque?
Oh Avó...queria dar-te o abarço de amor e o laço de proteçao que mantenho com as minhas filhas. Quero cuidar de ti, fazer o esforço inutil para que te lembres de mim, mas as palavras ficam mudas, os punhos fecham-se frustrados e o laço torna-se etereo.
Chorar é bom, alivia. Mas tu dentro de pouco -- se a vida for tao ironica assim -- nao te vais lembrar de poder chorar, das palavras, das caras, dos conceitos e da tua vida tao cheia de vivencias.
Tu: a primeira mulher portuguesa a subir os alpes, a baixar as grutas, das primeiras em divorciar-se, em escalar...cozinheira macrobiotica, contadora de historias, sonhadora...e agora o futuro encerra-te assim, perdendo o unico que te mantinha viva e feliz -- as tuas memorias.
Ja nao reconheces as minhas filhas, em flashes estás comigo ou com a minha mae...
´
Só te queria dizer que te admiro, tudo o que fizeste na vida, a separaçao, o levantares o restaurante, viveres em africa, seres pioneira, o casares com um homem mais novo em contra uma sociedade conservadora.
O recuperares da perda de um filho -- a minha mae -- que deve ser a dor mais profunda, a magoa maior.
Admiro-te.
E tenho saudades dos bons temposque romantizo na minha memoria: dos veroes interminaveis da minah infancia, das idas a praia, passeios no pinhal, ensinares-me a andar de bicicleta, as sandes de queijo com banana ao lanche, os mezagrans bem gelados. As tuas bonecas de pano que fizes-te e estao repartidas por todo o mundo, as pantufas a croché para manter os pés quentinhos de toda a familia e amigos previligiados, as mesas cheias de comida equilibrada, cheirosa, deliciosa...que já te esqueces-te de como preparar.
Choro por ti e por mim e principalmente pela ironia desta vida.
Ironico.
As tuas historias fantasticas, as melhores aventuras, os teus sonhos vao desaparecer da tua memoria como graos de areia num relogio
Acaba aqui o texto...
Mas esta viajem serviu para romper as barreiras que haviam e pude abraçar-te e sentir o teu abraço, dizer-te que te amava e dizer obrigado por tudo, e sei que nesse momento eras tu, estavas aí... por esse momento de poder sair de mim e abraçar-te e sentir-te e perdoar-te e perdoar-me por tudo o que tivemos passar ...por esse momento, a viajem mesmo sem a peregrinaçao valeu a pena...
obrigado por tudo, e nao entendo a ironia da vida, da tua vida...
amo-te
Apr 20, 2006
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
2 comments:
Muito lindo e tocante Vanda. Principalmente para quem tem acompanhado a história da tua (que é a minha também) família.
É tão bom crescer, saber medir os nossos sentimentos e, ainda mais importante, conseguir pô-los cá para fora.
Muitos beijos para ti :-)
What a great site Home inspector staten island http://www.projectors-1.info http://www.dodge-intrepid-parts.info Jack black devil mazda 3 buddy icons Backpacks funky 1988- 1993 pontiac lemans Diet pills online without a prescription water bed sheet Wheelchair pricing demonstration medicare project Wing tires atv
Post a Comment